Neurociências e chás: uma combinação que pode dar certo

Publicado 08/09/2021
Neurociências e chás: uma combinação que pode dar certo

A gente ama quando especialistas usam a Tea Shop como inspiração. A Michele é arquiteta e projetou um espaço incrível para a experiência dos nossos Tea Lovers. Confira o bate-papo que tivemos com ela:

 

Michele, gostaria que você se apresentasse um pouco, tua profissão, cidade e paixões. 

Meu nome é Michele Daltoé. Sou arquiteta, gaúcha (do interior - Encantado) mas moro no RJ desde sempre!

Minha paixão por arquitetura começou desde cedo. Sempre prestei muita atenção ao ambiente a minha volta e como poderia melhorá-lo. Amo design de mobiliário, talvez seja herança do meu avô, que era marceneiro por hobbie e adorava inventar coisas. Desenho algumas peças de vez em quando e dividi-las com os outros me dá muita satisfação. Mas meu foco sempre foi buscar bem-estar, harmonia e funcionalidade, através da transformação dos ambientes.


Explica pra gente, como uma arquiteta foi se interessar por neurociências?  Aliás, pode contextualizar os leigos sobre o que é a neurociência! 

Sempre me interessei por buscar novos conhecimentos e isso me fez encontrar formas diferentes de ver a arquitetura, onde fiz algumas especializações que passaram a fazer parte da minha metodologia de trabalho, criando assim a Arquitetura Integrativa.

Nesse processo encontrei a Neuroarq Academy, que é a academia brasileira de neurociência e arquitetura, pioneira na área no Brasil. Fiquei encantada por essa área desde o início pois saber que o ambiente nos afeta de forma positiva ou negativa nós sabemos, mas estudar como isso acontece e de que formas podemos melhorar os espaços para serem mais saudáveis, para gerarem boas memórias e para estimular nossos sentidos, isso era algo que eu nunca tinha tido acesso antes.

Esse termo chamado popularmente de “Neuroarquitetura” vem se tornando cada vez mais conhecido, assim como o design biofílico. São assuntos cada vez mais falados, principalmente após a pandemia, onde passamos a ficar confinados em ambientes fechados de forma ainda mais intensa.

A neurociência estuda o sistema nervoso e a forma como o cérebro funciona e reage aos estímulos.

Nos estudos da Neurociência aplicados para Arquitetura, pesquisas sobre como os ambientes impactam nas nossas percepções, sensações, comportamentos e até na saúde estão cada vez mais sendo realizadas. Ainda é cedo para conclusões definitivas, mas já se sabe que de alguma forma eles nos afetam.

Mesmo que a ciência ainda não explique tudo, ela já dá seguras pistas para que os projetos possam ser mais assertivos e sensíveis, com o objetivo de melhorar a vida de todos que convivem em um determinado espaço.

 


Como surgiu o interesse em redesenhar uma loja Tea Shop? E o que te inspirou? 

Eu conheci a marca em Porto Alegre há alguns anos e virei fã desde o início.

Os produtos são diferenciados, de muita qualidade e só de conhecer a loja é quase uma experiência cultural. Me chamou a atenção o conhecimento dos vendedores a respeito de cada produto e suas propriedades, afinal a variedade é bem grande.

Além disso o aroma da loja é uma característica bem marcante (e que encanta) e as embalagens (latas douradas) nos atraem o olhar para algo valioso.

Segundo a empresa a missão da marca “busca proporcionar aos clientes todo tipo de experiência prazerosa relacionada ao mundo do chá”.

Diante de tantos estímulos sensoriais, pensei no desafio de explorar ainda mais essa experiência em um quiosque de 14m², ainda mais pensando no cenário atual, onde o distanciamento social e o uso de máscaras dificultam a experimentação dos produtos. E isso é algo primordial para a decisão de compra.

 


Quais os principais insights sobre o universo do chá surgiram ao longo do processo?

O conceito principal que tive foi de trazer referências da arquitetura e filosofia zen japonesa para a loja, criando uma atmosfera de bem-estar e de tradição. Fiz dois espaços reservados de mesa com bancos, onde o cliente pode fazer degustação com segurança e são servidos pelos atendentes no interior do quiosque, como um ritual mesmo. Propus também que um óculos de realidade virtual pudesse ser usado com objetivo de enriquecer essa experiência, passando imagens relaxantes ou energizantes, combinando com o tipo de chá a ser degustado. A ideia é o cliente observar como se sente após essa experiência. Isso seria apenas algo experimental, mas se bem aplicado, poderia ajudar na decisão de compra.

Palavras como reflexão, conforto, simplicidade, relaxamento, aromas, memórias e emoção nortearam o projeto, através de imagens das matérias-primas (quando vemos algo, já associamos a seu sabor ou cheiro), do uso de materiais naturais e plantas, de dividir os chás de acordo com suas propriedades para facilitar o cliente de escolher de forma mais rápida e até a ideia de passar um vídeo na frente de loja com a história e o processo das pessoas que cultivam os chás, atraindo assim a atenção de quem passa pelo mall do shopping.

 
Quais as principais diferenças entre um projeto sem o olhar da neurociência e no que isso impacta na experiência do cliente? 

Em ambientes comerciais, os cinco sentidos têm muita importância para a construção de marcas. De acordo com pesquisas a visão se destaca com 58%, seguida pelo olfato com 45%, o som com 41%, o sabor com 31% e o toque, com 25%. Trabalhar mais de um sentido sensorial na marca pode aumentar em 1/3 a memorização e a fidelidade à ela.

Só essa informação já ajudaria a desenvolver um projeto diferenciado. Quando pesquisamos sobre outras variáveis, como por exemplo que tipo de formas usar, qual a melhor iluminação, como trazer elementos da Natureza de forma adequada, como destacar as características mais importantes da marca, entre outros, isso já enriquece o projeto de tal forma que o resultado além de belo e funcional, se torna marcante e cheio de significado. Eu chamo isso de arquitetura invisível, que a gente não vê, mas sente e isso nos ajuda na construção das nossas memórias.

 

Coisas que tu achar importantes/relevantes/considerações finais:  

Fazer esse trabalho foi uma experiência muito rica e que me trouxe muitos insights sobre como podemos usar a arquitetura comercial com estratégia e verdade.

As pessoas hoje precisam acreditar na promessa das marcas para consumir. Seus valores, seu propósito, tudo tem que conversar com o ambiente e com a postura da empresa diante dos clientes. A experiência hoje tem tanta importância na decisão de compra como nunca antes. E cada vez mais a arquitetura vem tendo um papel essencial nisso.

 

Para conhecer mais sobre o trabalho da Michele, você pode segui-la no Instagram: @micheledaltoe.arq